Alcione Peixoto
Escritora, atriz, professora e oradora espírita.
“ Deixai crescer juntos até a ceifa” ( Mateus, 13:30)
As notícias alarmantes veiculadas em todos os meios de comunicação do mundo alertando os humanos para a real situação de nosso planeta tão doente, vieram para transformar os sonhos ambiciosos e irresponsáveis de muitos, em pesadelos que apontam para um trágico despertar. A grande mobilização ainda não começou, mas os que já se conscientizaram tentam acordar os demais. E com que sacrifício!
Em todas as épocas de nosso crescimento espiritual na Terra convivemos com almas que caminham a nossa frente. Andam adiante de seu tempo, no rumo da Verdade e da luz e buscam esclarecer e conduzir_ por meio de seus exemplos__ os retardatários do progresso que temos sido. Jesus simbolizou tal convivência na Parábola do Joio e do Trigo: “Deixai crescer juntos até a ceifa”. É a Parábola da Tolerância. Da tolerância Divina conosco.
Isso nos remete à figura singela de Virgílio de Paula. Vovô Virgílio, como todos chamavam esse defensor da natureza nas décadas de 20 e 30 em Campos, era uma alma lúcida que a muitos encaminhou para o conhecimento da Doutrina Espírita. Chico Xavier o chamava de “ o ancião do templo”. Pela mediunidade de Peixotinho, o espírito Garcês, materializado, afirmou que Virgílio de Paula era um dos mais evoluídos espíritos que estavam na Terra naquela hora.
Era humilde e doce. Além disso, Virgílio foi um ecologista solitário porque parece ter nascido antes de seu tempo, já que somente hoje os homens acordam para a importância da preservação do meio ambiente. Foi um moderno discípulo de São Francisco de Assis antecipando-se, assim, à Era dos Sentimentos.
Também era musicista e ensinou os trabalhadores de suas terras não só a respeitar a natureza como também a tocar instrumentos. Lá nas terras abençoadas do Imbé, em meio às matas e às cachoeiras, organizou uma banda de música com os trabalhadores rurais. Ele e sua filha Juracy de Paula compuseram lindos hinos espíritas, inspirados pelo mais alto.
A casa de Virgílio era a reedição da Casa do Caminho onde os apóstolos de Jesus iniciaram entre nós suas práticas do amor e da caridade; abrigo seguro de quantos necessitassem de aconchego fraterno, cuidados, estímulos e amor..
Virgílio amava a natureza e a defendia. Eis um pouco dessa lucidez nos trechos de palestra por ele proferida em outubro de 1939 para os espíritas da Escola Jesus Cristo:
“Conheci de perto uma rica e pujante região luxuriante de vegetação, de uma beleza natural incomparável, de grandes florestas virgens povoadas de árvores gigantescas. Quantas vezes eu vi e ouvi o machado afiado reluzir e soar nas matas, em áreas de 20, 30 40 e mais alqueires de terras, derrubadas de uma só vez e, no estio do mês de janeiro, queimadas e requeimadas para que o terreno ficasse bem limpo e todo o chão lambido pelo fogo destruidor! Oh! Nossas irmãs árvores, quão grandes mártires sois!...Tão boas que sempre foram para nós e tão maus e cruéis temos sido e somos para vós!... Como são lindos os vossos ipês floridos e as vossas sapucaieiras engalanadas!...
Para que a destruição de matas preciosas sem necessidade? Por que destruímo-las sem pensar nas conseqüências? Parece que o homem tem pressa em transformar o mundo num deserto árido e inabitável! Mas é uma insânia! Uma insensatez!”
Virgílio refere-se ao plantio do café nessas áreas desmatadas e depois relata as conseqüências a que ele próprio assistiu:
Foram-se as matas na imprudente devastação e as chuvas também desertaram para castigo de nossa incúria! A zona de que vos falei tornou-se árida em pouco tempo e os belos cafezais morreram praguejados e sem remédio porque passou a faltar ali a necessária umidade para o cafezal.”
Mais à frente conclui: “A evolução natural é um fato e é segura . Mas é lenta e medida sabiamente pelo criador dos mundos. Os homens só são revolucionários porque abusam de seu livre arbítrio na pressa que sempre têm de obter o que almejam. Mas as revoluções destroem a nossa felicidade porque alteram a regularidade da lei evolutiva, que é a lei divina. E de nada, afinal, adianta o grande progresso material a que, de preferência sempre visamos, não havendo o progresso moral, progresso este que deveria até andar sempre à frente.”
Por atraso moral matamos e destruímos. Pelo descaso para com essa marcha evolutiva natural é que hoje nos apavoramos com o retorno da natureza agredida em nome de um duvidoso progresso;
Eis o pedido desse sábio humilde:
“Travemos, pois, o carro que vai, em disparada, e lutemos contra a hecatombe das destruições. Criemos os nossos filhos com uma outra educação mais delicada e suave, mais amena e sentimental; ampliemos-lhes os corações e os enchamos de amor e de bondade, dos mais doces sentimentos da alma, de grande respeito à criação. Ensinemos-lhes a serem bons para com os pequeninos seres a fim de que também o possam ser para com os grandes”
Vimos como esse notável homem há quase setenta anos atrás tinha a visão do futuro e com que delicadeza e carinho se referia às plantas. Outro ponto em que ele se adianta no tempo é no que se refere à supremacia do SENTIMENTO sobre a pobre razão de cada tempo. Só hoje a humanidade se inclina a considerar tal supremacia. Hoje ouvimos falar em cursos sobre Educação dos Sentimentos e muitos livros sobre o tema lotam as prateleiras de nossas livrarias. Os bons sentimentos são mais fortes porque são as marcas de Deus em nós mesmos. Formam as antenas com que a criatura se comunica com o Criador. Os bons sentimentos revitalizam-nos e a quantos partilham-nos a convivência. As pessoas excessivamente críticas e racionais anulam seus mais ternos sentimentos e tornam áridos seus espíritos, abortando a germinação da semente da verdadeira fraternidade: a misericórdia. E Virgílio de Paula a estendia também aos vegetais.Sabia que neles havia vida.
Os antigos Xamãs_ homens de conhecimento das comunidades pré-históricas_ já sabiam que por trás de seu aparente torpor, as plantas possuem uma vida secreta, cheia de percepções e atividades. Mais tarde o místico alemão Jacob Boehme ( 1575-1624) dizia ser capaz de penetrar a consciência das plantas. O mundo conheceu depois Peter Tompkins e Cristopher Bird com o livro “ A Vida Secreta das Plantas” que relata interessantes experiências que confirmam a sensibilidade e até a memória das plantas.
Foi em 1996 que Clever Backster, o grande especialista americano em detecção de mentiras, teve a idéia de fixar eletrodos de um de seus detectores numa folha de dracena, uma planta ornamental. Não imaginava ele que a simples idéia da agressão à planta provocasse saltos tão violentos nos gráficos do aparelho. Foi, porém, o que aconteceu quando ele SÓ PENSOU em queimar uma das folhas da dracena
Antenado com tais descobertas, o brasileiro Arlindo Tontin fixa eletrodos numa planta. A foto foi realizada no Laboratório de Metrologia Elétrica da FEI em São Bernardo do Campo, SP. O local é blindado eletricamente para eliminar a influência dos ruídos externos. Resumindo: ele descobriu que a ascensão da seiva estava associada a um fenômeno elétrico; descobriu que as agressões externas afetavam a corrente elétrica que circula na planta e para não agredi-la interrompe a pesquisa depois de interessantes descobertas.
Ao ler sobre tais descobertas, lembrei-me dos conhecimentos singelos e profundos do homem rural ao se referirem ao “olho ruim” de certas pessoas a quem chamavam de “seca pimenteira” por destruírem repentinamente com um olhar uma grande e viçosa planta. Pensei na eletricidade e no magnetismo do ser humano a desenvolver ou destruir os vegetais.
Concluímos, então, que há duas formas distintas de entendimento do mundo que nos cerca: Uma é cognitiva e se liga à informação. A outra, intuitiva, nos vem pela sensibilidade e está ligada à formação expressando-se no cultivo dos hábitos de observação e de respeito à vida..
JESUS, Grande Educador, utilizou-se de elementos da natureza em suas metáforas: sementes, árvores, frutos, água, chuva, rios, mares, sol, céu, terra, seara, estrelas etc. Cuidemos do nosso planeta hoje tão aquecido fisicamente e espiritualmente tão frio.
Enquanto aguardamos tal compreensão, vamos vivendo entre Katrinas e Tsunamis, gritarias e pânicos. E os missionários, qual trigos divinos em meio ao joio, ofertam-se em sacrifícios para que olhemos com carinho pela natureza e ouçamos seu grito de socorro. “Quem tem olhos de ver veja, quem tem ouvidos de ouvir, ouça”.